terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A neurologia do sono





Nas últimas décadas muitos pacientes de doenças crônicas graves como miastenia, neuropatias, e muitas outras tinham uma característica comum: a privação de sono.
É no sono que nosso organismo se autoregula, se reorganiza, processa e integra experiências vividas durante o dia. Apesar da boa vontade dos médicos, quem faz uso de remédio para dormir ou relaxar, sabe que o sono “induzido” não tem a mesma qualidade do sono expontâneo.
Ao mesmo tempo, organismos que sobreviveram traumas (independentes do grau ou qualidade do trauma), tem em comum a má qualidade do sono.  Quando eu recebo um paciente com distúrbio de sono, quase que consigo ter uma noção do que este paciente passou. Claro que existem variações de pessoa para pessoa porque uns são mais resilientes do que outros. Para mim, que trabalho com a neurologia do trauma através de uma “simples” conversa que vai atuar no sistema polivagal que é justamente o sistema que foi “prejudicado” pelo trauma, e como sabemos, independe da gravidade da experiência, porque cada um é estruturado de maneira diferente e viveu experiências distintas na vida, a estória que o paciente traz serve somente de guia. O que importa é o que essa experiência causou à neurologia da pessoa. Uma neurologia que ficou em parte “estagnada” na circunstância do trauma. Esse organismo, por estar “estagnado” na circunstância do trauma “tem certeza” de que ainda se encontra em risco e por isso permanece ativado, em alerta.
Esse organismo não pode relaxar porque funciona como se ainda estivesse em risco.
Por causa dessa característica que tem a função de preservar o organismo, aquele indivíduo não pode relaxar, não pode adormecer porque vive como se estivesse em risco. Estas pessoas têm distúrbios bastante sérios de sono. Alguns têm dificuldade para adormecer enquanto que outros adormecem porém acordam muito antes de terem completado um número satisfatório de horas de sono. Horas de sono que permitem ao organismo se recuperar, se reorganizar, se curar, etc

Bettina Sandel Korall
bettinakorall@uol.com.br

domingo, 7 de maio de 2017

Encontros e Despedidas

Encontros e despedidas?



O que acontece atualmente com os relacionamentos românticos?

Por que ocorrem tantos desencontros no Amor? O que se espera de um relacionamento? Homens e mulheres são realmente de planetas diferentes?
Essas são as perguntas mais comuns no consultório quando se trata de relacionamento. E surpreenda-se. Tanto por mulheres quanto por homens na mesma proporção. Pois é, parece que homens e mulheres refletem sobre as mesmas coisas no que diz respeito a relacionamento amoroso. Aparece aqui já uma dica sobre a questão se somos ou não de planetas diferentes. Não somos, não!
Pelo contrário, estamos ficando tão parecidos, homens e mulheres, que já não temos mais a menor idéia do que é papel de um, o que é papel do outro. Isso não seria problema se soubéssemos nos comunicar melhor uns com os outros, digo homens e mulheres, porém ainda precisamos melhorar muito nesta arte.
Há apenas algumas décadas, homens e mulheres tinham papéis bem definidos. Tipo o homem era o único provedor e portanto detentor do poder, era quem mandava, na relação mulher-homem.
Somente este aspecto já modifica radicalmente o relacionamento, não é ? Hoje os dois provêm, trabalham, mantêm a casa, "mandam", tomam todas as decisões pertinentes a relação.

Esta falta de roteiro permite tantos roteiros quanto se queira inventar. Quanto as diferenças entre mulheres e homens, padecemos das mesmas coisas, das mesmas inseguranças, da mesma fragilidade, da mesma vontade de sermos amados, sermos cuidados, compreendidos, acolhidos, respeitados, e mais que tudo, importantes, muito importantes na vida do outro. Pôxa, mas se sofremos das mesmas fragilidades por que temos tanta dificuldade em entender o outro?
Talvez seja porque no Amor temos "dois pesos e duas medidas".
Esperamos do outro coisas quase impossíveis, coisas que nós não temos para dar. Coisas como “amor incondicional” ou esperar que o outro tenha a capacidade de adivinhar o que estamos desejando ou pensando sem que se tenha que dizer nada e por aí vai. Se tratássemos o outro como gostaríamos que nos tratassem talvez pudéssemos ser mais felizes no Amor. Homens idealizam suas mulheres e vice-versa.
Lembra do "não faça ao outro..." O que aconteceu ao "Ame o próximo como a ti mesmo"?

E que tal os abusos cometidos em nome do amor?
Quem disse que o amor inclui vigiar a liberdade do outro o tempo todo? Pois é, há muitos casais que se vigiam mutuamente o tempo todo e se criticam o tempo todo. Já não é fácil viver sob o olhar de um outro...
Além disso a mídia tem nos vendido a idéia de que encontrar pessoas é tão fácil que não vale a pena se esforçar muito para manter a relação. "Amor é que nem biscoito, vai um vem oito". Parece que o amor é mais uma questão de mercado que obedece a lei da oferta e da procura. "Se eu sou sarada e bonita me cabe um par igualmente bonito e em forma". A relação romântica passou a ser o encontro conveniente de dois seres para fugir à solidão, à inadequação social. O objeto de interesse no amor é de fato, objeto de interesse, objeto da atenção. Bem longe do encontro EU-TU de Martin Buber.


Já magoados pelas relações anteriores (casamentos desfeitos, noivados rompidos, grandes doses de boa vontade sendo arrasadas por ‘deslealdades’ e decepções...que na verdade não passam todas de experiências de desencontro) temos grande dificudade para investir afetivamente em novas relações, para estabelecer novas ligações. Estamos machucados e temos medo de acreditar...
A confusão do amor com desejo sexual faz com que a troca de parceiro seja mais constante já que o desejo sexual acaba se exaurindo em sua própria satisfação.


Mas e o Amor, onde anda? O que é?
Segundo Erich Fromm, cada vez mais atual, o "Amor não é uma relação para com uma pessoa específica; é uma atitude, uma orientação de caráter, que determina a relação de alguém para com o mundo como um todo, e não para com um 'objeto' de amor. Se uma pessoa ama apenas a uma pessoa e é indiferente ao resto de seus semelhantes, seu amor não é amor, mas um afeto simbiótico, ou egoísmo ampliado. Contudo, a maioria crê que o amor é constituído pelo objeto e não pela faculdade (capacidade de amar)".
E tem mais: "O amor erótico é exclusivo (em nossa cultura), mas ama na outra pessoa toda a humanidade, tudo quanto vive"..."Amar alguém não é apenas um sentimento forte: é uma decisão, um julgamento, uma promessa". E mais que tudo, uma possibilidade. Cada um, dependendo de sua estrutura psicológica, tem expectativas bastante diversas quanto ao Amor. Uns são complementados em suas fraquezas, outros, em suas forças.
Alguns organizam suas vidas em torno do desejo de agradar, de ser cuidado, ou alternativamente, de controlar, de dominar, de manipular, coagindo o parceiro a atender suas satisfações, suas necessidades, suas vontades, porque não confiam na autenticidade do Amor de ninguém, não acreditam que o que são, sem sedução e manipulação, seja suficiente para serem amados. Quer busquem completude ou preenchimento pela dominação ou submissão, pela obediência ou sendo obedecido, sempre há o mesmo fundamental sentimento de vazio, um "oco" no âmago do ser, um "buraco" que "grita", que "urra" onde um "self" autônomo falhou na possibilidade de assimilar e integrar a básica e fundamental solidão existencial.
Nas palavras de Fromm, “Amar é dar”. Dar. Amar é o exercício da generosidade. É a vontade de dar sem esperar nada em troca. Uma incrível e incontrolável vontade de fazer o outro feliz. Fazer “alguma coisa” para ver o outro feliz. O oposto disso são aquelas relações em que vemos um fazer “qualquer coisa” para infernizar a vida do outro. Muitos “medem” o amor do outro pela quantidade de sacrifícios cometidos. E aí, que tal, dar sem esperar receber nada em troca? Você está achando fora de moda? Pelo contrário, é a última moda. Experimenta. Experimenta.

por Bettina Korall

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A expressão do canto na auto regulação ou "Quem canta seus males espanta?"




Música é terapia?
Música é terapêutica no momento em que te reconecta com o que há de mais profundo no teu ser. Lembre-se que antigamente, não muito tempo atrás, no final do dia encontrávamos com nossos pares a beira da fogueira onde dançávamos e cantávamos músicas que nos faziam sentir bem. Essa era nossa maneira de nos auto regularmos e principalmente minimizarmos o estresse da vida. E era também a nossa expressão social.
Nos encontrávamos cantando e dançando.
Hoje os jovens, por exemplo, se auto regulam muito na "balada". A balada é uma maneira de auto regulação. Muitos se auto regulam fazendo exercício físico como por exemplo correr.
Você já notou que muita gente trabalha cantando. E você já notou que essas pessoas que trabalho cantando tem uma auto regulação mais efetiva?
Em outras palavras, são mais felizes?

Bettina Sandel Korall



terça-feira, 10 de maio de 2016

A luta dos monoteísmos

A luta dos monoteísmos


Eu sempre soube que eu era filha de Deus. Meu nome hebraico é batia que quer dizer filha d'Ele. Sempre senti que Ele estava lá,eu sempre sabia que Ele estava lá e não importa o que acontecesse Ele sempre estava lá. Cresci  forte numa família de sobreviventes do Holocausto.
Meus dois pais eram sobreviventes do Holocausto.
Sobrevivi aos sobreviventes porque Ele estava lá.
Nunca me decepcionou. Mesmo quando eu não sabia o que eu queria direito, Ele sabia.
Mas eu não acho que Ele esteja aí só para mim. Eu sei que Ele está aí para todo mundo.
E mais, Ele é o mesmo não importa a sua religião. Ele é o mesmo. E os homens estão se matando em nome d'Ele. Mas Ele é o mesmo. Nós humanos somos o mesmo. Tanto na grandeza quanto no pior de nós mesmos, somos o Mesmo.
Nascemos igual, morremos igual.Sangramos igual.
Acreditamos em coisas distintas? Fazemos as coisas de modo distinto?
Mas não se engane, somos o Mesmo. Somos o mesmo do mesmo. Somos o Mesmo do mesmo no Mesmo.
Somos Ele.

BK

quinta-feira, 10 de março de 2016

Do rompimento do pacto ao colapso.


Vamos combinar: sempre houve roubalheira, sim, sempre.
"O ladrão faz a ocasião" (BK)
O problema ocorre quando se ultrapassa o ponto de ruptura do pacto social. 
Quando o exemplo é tão escrachado e escrachar é tão mais fácil que, combinado com a pobre 
conexão e pobre educação que os pais conseguem dedicar aos filhos já que o trabalho os consome sobremaneira com sua respectiva atitude de dar bens materiais no lugar de relação devido à sua ausência, resulta no desastre total.
Se elegemos pessoas que não respeitam limites, não temos limites já que pra tudo tem um jeitinho 
e não ensinamos limites aos nossos filhos, lhes dando tudo que não tivemos, oferecemos todas as condições para o rompimento do pacto social que nos faz quem somos.
Roubos ocorrem em todas as instâncias e todos os setores em nossa sociedade mas parece que a indignação daqueles que acabam justificando seus atos pelos exemplos impunes dos que deveriam nos servir acaba dando aquele empurrãozinho que faltava de coragem, vai pelo caminho do "salve-se quem puder".
E o resultado é falta: de medicamentos, de bom senso, de atendimento em unidades de saúde 
em quaisquer níveis (ambulatórios, hospitais, exames etc), de respeito, de escolas (se rouba desde material escolar e mídias até material físico, cadeiras, mesas e lousas).
E o resultado é sofrimento.
E agora?

Bettina Korall
Psicóloga, psicoterapeuta especialista em doenças, sintomas e estresse pós-traumático.

Atende presencialmente em São Paulo e pelo Skype.