Trauma , dissociação e felicidade
Você já percebeu que estava dissociado? Por exemplo, você já percorreu um caminho conhecido sem se perceber e chegou ao seu destino sem ter a mínima memória do caminho que percorreu? Isso é dissociação. Não entenda mal: a dissociação é um mecanismo importantíssimo. Ele pode ser uma defesa. Ele pode estar a serviço da economia de energia do cérebro. Nesse último caso, estar no “automático” em certas tarefas repetitivas permite uma economia maior de energia já que o cérebro presente e pensante gasta muita energia (atp - adenosina tri fosfato).
Nosso cérebro consome muita energia quando em atividade.
Então uma das maneiras de economizar energia em tarefas em que a atenção é relativa é ele se colocar em “piloto automático”. Porém há momentos em que ele está dissociado e não deveria. Exemplifico: quando você está com um problema ou questão que está necessitando muito de sua atenção, é muito comum a dissociação em outras questões ou seja ausência de presença. Sabe aquele momento em que você sem prestar muita atenção concorda com alguma coisa que você jamais concordaria, pois é, você estava dissociado. Comumente chamado de distraído. A verdade é que dissociados não estamos em lugar nenhum. Seu cérebro está tentando dedicar-se a outras questões do que aquela que se apresenta.
O mesmo acontece com quem carrega traumas. Parece que o trauma ou os traumas habitam o “segundo plano” do ser. Ele acaba “roubando” parte da atenção e presença daquele organismo. A falta de presença e atenção resulta num self dissociado que habita o mundo sem coerência ou pouco coerente. A pessoa acha que se conhece mas carece de coerência e lucidez. São aqueles seres sem noção. Sem a menor coerência. Lógico que os graus de coerência e noção variam apesar de que muitos de nós nos dedicamos a ter mais lucidez , mais maturidade e maior compreensão do mundo e de quem nele habita. Outros se dedicam a saciar seus desejos imediatos.
Muitas vezes nos damos conta do quanto estamos dissociados.
Muitas vezes nos damos conta do quanto o outro está dissociado. Até faço uma correlação direta entre trauma e dissociação.
Muitos traumas não parecem traumas mas causam o mesmo dano na vida da pessoa. Por exemplo: está na moda criar-se as crianças poupando-as de frustração. Minha geração, de certo modo, aprendeu a suportar mais frustração que as crianças de agora (2019). O resultado é que a auto estima, da criança e das pessoas em geral atual, é fragilizada pela ideia recente em termos históricos de felicidade que certamente não tínhamos quando eu era criança. Como agora a felicidade está em moda, ninguém tem facilidade de aceitar e “digerir” o aborrecimento, a frustração, a dor, a ansiedade. Somos tão “mimados” pela tecnologia e facilidades da nossa vida que não podemos esperar.
Temos que ter tudo na hora. Temos que ser constantemente felizes.
Bettina Sandel Korall
Bettina Sandel Korall
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