segunda-feira, 11 de março de 2019

Sobre trauma



Pesquisando e clinicando há mais de trinta anos, cheguei a uma técnica integrativa que reconstrói a neurologia do indivíduo atingido por trauma permitindo assim a "volta" ao fluxo natural do "rio" da vida restaurando a autorregulação.
Nosso organismo é incrivelmente capaz de se regular neurologicamente de modo a nos adaptarmos às grandes saídas de nossa zona de conforto. Porém, um indivíduo que passou por trauma geralmente tem essa capacidade diminuída ou em casos mais severos, nenhuma capacidade de autorregulação. Sabe aquela pessoa que sai do sério por pouca coisa e depois não consegue voltar ao lugar interno de paz, segurança conexão objetividade orientação etc?
É o trauma que causa tudo isso e que compromete o funcionamento pleno do organismo por perda de energia. Energia essa, vital, da qual este organismo depende e que está sendo drenada pelo vórtex de trauma para sua própria manutenção. E que consequentemente, fará falta a esse organismo.
No trabalho clínico de cura que é a restauração da autorregulação é muito comum acontecer reestruturação da autoestima, alegria, esperança  etc que são os maiores recursos que temos e mais do que tudo, o retorno dessa energia vital para o organismo aumentando assim a resiliência que é um termo emprestado da Física designando a capacidade de um material recuperar sua forma e estrutura original após algum tipo de impacto significativo. No nosso caso, é a capacidade e a qualidade de sobrevivermos após algo que foi demais para nós. Veja bem, dois indivíduos passam pela mesma experiência e um saí traumatizado e o outro, não. Um é mais resiliente que o outro.
Trauma é tudo o que é muito forte para o organismo e que deixa alguma sequela mesmo que seja um comportamento mínimo que atrapalha um pouco a vida (estresse pós traumático) ou um sintoma grande que quase impossibilita a existência (sintoma pós traumático).
Mesmo que raramente o indivíduo associe aquele sintoma ao trauma.
De todos os modos o que me leva trabalhar com essas pessoas e escrever sobre o assunto é o desejo profundo de que as pessoas saibam que elas tem a possibilidade de viver uma vida plena e não uma sobrevivência sofrida por causa de algo que estava além de sua capacidade de suportar como se fosse uma fatalidade do destino.
Tem cura.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O que é "borderline"?

Borderline, em uma tradução livre, se refere a extremos, limites tênues. 
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Ou seja, o transtorno de personalidade borderline caracteriza pessoas que, literalmente, são 8 ou 80, de uma forma nada saudável para elas ou para quem as cerca. Vivem uma montanha-russa emocional e podem ir de um intenso sentimento de ansiedade à depressão intensa logo em seguida. Confira alguns indícios clássicos do transtorno:

- Um dos principais sinais do transtorno é um longo histórico de instabilidade nas relações pessoais. Podem idolatrar alguém e, logo em seguida, odiá-la.
- Tendência a assumir riscos sem pensar nas consequências. Especialmente quando os resultados são contra ela mesma, como por exemplo: acidentes de carro, sexo de risco ou abuso de substâncias.
- Sentem raiva intensa sobre assuntos relativamente triviais e respondem fisicamente. Isso pode incluir tentativas de automutilação ou pensamentos suicidas. No entanto, geralmente não estão tentando se matar quando se flagelam. Ao contrário, elas estão expressando sentimentos de raiva com relação a si mesmas ou tentando se sentir ‘normais’.
- Muitas vezes se sentem como pessoas diferentes, dependendo com quem estão. Elas costumam se descrever como perdidas e vazias.
- Pensamentos paranóicos. Elas acreditam em coisas que não são verdadeiras e se sentem perseguidas pelos outros. 
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👨🏻⚕️Estes ataques podem durar algumas horas ou mesmo alguns dias. Devido aos riscos por trás do comportamento extremista, essas pessoas precisam de ajuda psicológica e psiquiátrica. 
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Fonte: Psicolinews 
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Trauma, dissociação e felicidade


Trauma , dissociação e felicidade


Você já percebeu que estava dissociado? Por exemplo, você já percorreu um caminho conhecido sem se perceber e chegou ao seu destino sem ter a mínima memória do caminho que percorreu? Isso é dissociação. Não entenda mal: a dissociação é um mecanismo importantíssimo. Ele pode ser uma defesa. Ele pode estar a serviço da economia de energia do cérebro. Nesse último caso, estar no “automático” em certas tarefas repetitivas permite uma economia maior de energia já que o cérebro presente e pensante gasta muita energia (atp - adenosina tri fosfato).
Nosso cérebro consome muita energia quando em atividade.
Então uma das maneiras de economizar energia em tarefas em que a atenção é relativa é ele se colocar em “piloto automático”. Porém há momentos em que ele está dissociado e não deveria. Exemplifico: quando você está com um problema ou questão que está necessitando muito de sua atenção, é muito comum a dissociação em outras questões ou seja ausência de presença. Sabe aquele momento em que você sem prestar muita atenção concorda com alguma coisa que você jamais concordaria, pois é, você estava dissociado. Comumente chamado de distraído. A verdade é que dissociados não estamos em lugar nenhum. Seu cérebro está tentando dedicar-se a outras questões do que aquela que se apresenta. 
O mesmo acontece com quem carrega traumas. Parece que o trauma ou os traumas habitam o “segundo plano” do ser. Ele acaba “roubando” parte da atenção e presença daquele organismo. A falta de presença e atenção resulta  num self dissociado que habita o mundo sem coerência ou pouco coerente. A pessoa acha que se conhece mas carece de coerência e lucidez. São aqueles seres sem noção. Sem a menor coerência. Lógico que os graus de coerência e noção variam apesar de que muitos de nós nos dedicamos a ter mais lucidez , mais maturidade e maior compreensão do mundo e de quem nele habita. Outros se dedicam a saciar seus desejos imediatos. 
Muitas vezes nos damos conta do quanto estamos dissociados.
Muitas vezes nos damos conta do quanto o outro está dissociado. Até faço uma correlação direta entre trauma e dissociação. 
Muitos traumas não parecem traumas mas causam o mesmo dano na vida da pessoa. Por exemplo: está na moda criar-se as crianças poupando-as de frustração. Minha geração, de certo modo, aprendeu a suportar mais frustração que as crianças de agora (2019). O resultado é que a auto estima, da criança e das pessoas em geral atual, é fragilizada pela ideia recente em termos históricos de felicidade que certamente não tínhamos quando eu era criança. Como agora a felicidade está em moda, ninguém tem facilidade de aceitar e “digerir” o aborrecimento, a frustração, a dor, a ansiedade. Somos tão “mimados” pela tecnologia e facilidades da nossa vida que não podemos esperar. 
Temos que ter tudo na hora. Temos que ser constantemente felizes. 

Bettina Sandel Korall


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A neurologia do sono





Nas últimas décadas muitos pacientes de doenças crônicas graves como miastenia, neuropatias, e muitas outras tinham uma característica comum: a privação de sono.
É no sono que nosso organismo se autoregula, se reorganiza, processa e integra experiências vividas durante o dia. Apesar da boa vontade dos médicos, quem faz uso de remédio para dormir ou relaxar, sabe que o sono “induzido” não tem a mesma qualidade do sono expontâneo.
Ao mesmo tempo, organismos que sobreviveram traumas (independentes do grau ou qualidade do trauma), tem em comum a má qualidade do sono.  Quando eu recebo um paciente com distúrbio de sono, quase que consigo ter uma noção do que este paciente passou. Claro que existem variações de pessoa para pessoa porque uns são mais resilientes do que outros. Para mim, que trabalho com a neurologia do trauma através de uma “simples” conversa que vai atuar no sistema polivagal que é justamente o sistema que foi “prejudicado” pelo trauma, e como sabemos, independe da gravidade da experiência, porque cada um é estruturado de maneira diferente e viveu experiências distintas na vida, a estória que o paciente traz serve somente de guia. O que importa é o que essa experiência causou à neurologia da pessoa. Uma neurologia que ficou em parte “estagnada” na circunstância do trauma. Esse organismo, por estar “estagnado” na circunstância do trauma “tem certeza” de que ainda se encontra em risco e por isso permanece ativado, em alerta.
Esse organismo não pode relaxar porque funciona como se ainda estivesse em risco.
Por causa dessa característica que tem a função de preservar o organismo, aquele indivíduo não pode relaxar, não pode adormecer porque vive como se estivesse em risco. Estas pessoas têm distúrbios bastante sérios de sono. Alguns têm dificuldade para adormecer enquanto que outros adormecem porém acordam muito antes de terem completado um número satisfatório de horas de sono. Horas de sono que permitem ao organismo se recuperar, se reorganizar, se curar, etc

Bettina Sandel Korall
bettinakorall@uol.com.br

domingo, 7 de maio de 2017

Encontros e Despedidas

Encontros e despedidas?



O que acontece atualmente com os relacionamentos românticos?

Por que ocorrem tantos desencontros no Amor? O que se espera de um relacionamento? Homens e mulheres são realmente de planetas diferentes?
Essas são as perguntas mais comuns no consultório quando se trata de relacionamento. E surpreenda-se. Tanto por mulheres quanto por homens na mesma proporção. Pois é, parece que homens e mulheres refletem sobre as mesmas coisas no que diz respeito a relacionamento amoroso. Aparece aqui já uma dica sobre a questão se somos ou não de planetas diferentes. Não somos, não!
Pelo contrário, estamos ficando tão parecidos, homens e mulheres, que já não temos mais a menor idéia do que é papel de um, o que é papel do outro. Isso não seria problema se soubéssemos nos comunicar melhor uns com os outros, digo homens e mulheres, porém ainda precisamos melhorar muito nesta arte.
Há apenas algumas décadas, homens e mulheres tinham papéis bem definidos. Tipo o homem era o único provedor e portanto detentor do poder, era quem mandava, na relação mulher-homem.
Somente este aspecto já modifica radicalmente o relacionamento, não é ? Hoje os dois provêm, trabalham, mantêm a casa, "mandam", tomam todas as decisões pertinentes a relação.

Esta falta de roteiro permite tantos roteiros quanto se queira inventar. Quanto as diferenças entre mulheres e homens, padecemos das mesmas coisas, das mesmas inseguranças, da mesma fragilidade, da mesma vontade de sermos amados, sermos cuidados, compreendidos, acolhidos, respeitados, e mais que tudo, importantes, muito importantes na vida do outro. Pôxa, mas se sofremos das mesmas fragilidades por que temos tanta dificuldade em entender o outro?
Talvez seja porque no Amor temos "dois pesos e duas medidas".
Esperamos do outro coisas quase impossíveis, coisas que nós não temos para dar. Coisas como “amor incondicional” ou esperar que o outro tenha a capacidade de adivinhar o que estamos desejando ou pensando sem que se tenha que dizer nada e por aí vai. Se tratássemos o outro como gostaríamos que nos tratassem talvez pudéssemos ser mais felizes no Amor. Homens idealizam suas mulheres e vice-versa.
Lembra do "não faça ao outro..." O que aconteceu ao "Ame o próximo como a ti mesmo"?

E que tal os abusos cometidos em nome do amor?
Quem disse que o amor inclui vigiar a liberdade do outro o tempo todo? Pois é, há muitos casais que se vigiam mutuamente o tempo todo e se criticam o tempo todo. Já não é fácil viver sob o olhar de um outro...
Além disso a mídia tem nos vendido a idéia de que encontrar pessoas é tão fácil que não vale a pena se esforçar muito para manter a relação. "Amor é que nem biscoito, vai um vem oito". Parece que o amor é mais uma questão de mercado que obedece a lei da oferta e da procura. "Se eu sou sarada e bonita me cabe um par igualmente bonito e em forma". A relação romântica passou a ser o encontro conveniente de dois seres para fugir à solidão, à inadequação social. O objeto de interesse no amor é de fato, objeto de interesse, objeto da atenção. Bem longe do encontro EU-TU de Martin Buber.


Já magoados pelas relações anteriores (casamentos desfeitos, noivados rompidos, grandes doses de boa vontade sendo arrasadas por ‘deslealdades’ e decepções...que na verdade não passam todas de experiências de desencontro) temos grande dificudade para investir afetivamente em novas relações, para estabelecer novas ligações. Estamos machucados e temos medo de acreditar...
A confusão do amor com desejo sexual faz com que a troca de parceiro seja mais constante já que o desejo sexual acaba se exaurindo em sua própria satisfação.


Mas e o Amor, onde anda? O que é?
Segundo Erich Fromm, cada vez mais atual, o "Amor não é uma relação para com uma pessoa específica; é uma atitude, uma orientação de caráter, que determina a relação de alguém para com o mundo como um todo, e não para com um 'objeto' de amor. Se uma pessoa ama apenas a uma pessoa e é indiferente ao resto de seus semelhantes, seu amor não é amor, mas um afeto simbiótico, ou egoísmo ampliado. Contudo, a maioria crê que o amor é constituído pelo objeto e não pela faculdade (capacidade de amar)".
E tem mais: "O amor erótico é exclusivo (em nossa cultura), mas ama na outra pessoa toda a humanidade, tudo quanto vive"..."Amar alguém não é apenas um sentimento forte: é uma decisão, um julgamento, uma promessa". E mais que tudo, uma possibilidade. Cada um, dependendo de sua estrutura psicológica, tem expectativas bastante diversas quanto ao Amor. Uns são complementados em suas fraquezas, outros, em suas forças.
Alguns organizam suas vidas em torno do desejo de agradar, de ser cuidado, ou alternativamente, de controlar, de dominar, de manipular, coagindo o parceiro a atender suas satisfações, suas necessidades, suas vontades, porque não confiam na autenticidade do Amor de ninguém, não acreditam que o que são, sem sedução e manipulação, seja suficiente para serem amados. Quer busquem completude ou preenchimento pela dominação ou submissão, pela obediência ou sendo obedecido, sempre há o mesmo fundamental sentimento de vazio, um "oco" no âmago do ser, um "buraco" que "grita", que "urra" onde um "self" autônomo falhou na possibilidade de assimilar e integrar a básica e fundamental solidão existencial.
Nas palavras de Fromm, “Amar é dar”. Dar. Amar é o exercício da generosidade. É a vontade de dar sem esperar nada em troca. Uma incrível e incontrolável vontade de fazer o outro feliz. Fazer “alguma coisa” para ver o outro feliz. O oposto disso são aquelas relações em que vemos um fazer “qualquer coisa” para infernizar a vida do outro. Muitos “medem” o amor do outro pela quantidade de sacrifícios cometidos. E aí, que tal, dar sem esperar receber nada em troca? Você está achando fora de moda? Pelo contrário, é a última moda. Experimenta. Experimenta.

por Bettina Korall