quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Anotações sobre o trauma



Correr, lutar ou “congelar” diante de ataque de risco são as três possibilidades neurológicas dos mamíferos. 
Quotidianamente nosso organismo se sai bem frente a eventos de risco mas quando o ataque é muito para ele, organismo, tem que abrir mão de reações de defesa que o afetam temporariamente ou definitivamente. Esses são os sintomas e doenças pós traumáticos. 
Quanto mais insuportável o evento maior o trauma e a impossibilidade ou dificuldade do organismo funcionar em plenitude como fazia antes do evento traumático.

A boa notícia: tem cura.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Sobre o EGO

O EGO é uma construção de personalidade como as formas de madeira necessárias para o concretamente do self.
O EGO é uma estrutura de defesa. Uma estrutura de pensamento. Geralmente é constituído de valores, crenças, idéias, emoções profundamente reprimidas, constructos intelectuais. 
Muitas vezes é mantido sob controle até que algo que é vivido como ameaça ao bem estar do indivíduo, e então ele se torna visível e forte com possibilidade de desestruturação parcial. O EGO machucado dependendo da severidade do trauma, é um EGO cheio de "rasgos". 
Muitas personalidades traumatizadas podem ter um EGO "como se". São pessoas que possuem uma capacidade de integração muito limitada então eles "imitam" o comportamento do outro que funciona como um guia. Qualquer outro que diante de sua capacidade pobre de avaliação pareça sensato.
Outro exemplo de personalidade de trauma é a personalidade psicopata onde o indivíduo é completamente dissociado de qualquer emoção legítima. E dependendo do grau, capaz de tudo para ter êxito em seus objetivos. Existem emoções que podem ser impulsionadoras mas estas estão enterradas muito profundamente.
Todo EGO "machucado", traumatizado tem rupturas.
Tem indivíduos com tamanhos "rasgos" que nada é tangível, tudo se lhe escapa pelos "rasgos" e ele está sempre necessitado. 
Muitas vezes para não se sentir constrangido, o que produz sofrimento, o indivíduo constrói um EGO persona onde ele sempre está interpretando um papel teatral o que consome muita energia vital.(esse é o que chamei de "como se")
Ao longo dos anos notei que esse tipo de personalidade constantemente tinha um sistema imunológico mais 
frágil. Na verdade, notei que a saúde do sistema imunológico tinha tudo a ver com o comprometimento do organismo por trauma.
A vida de que sofreu algum trauma significativo é bem mais difícil do que a dos outros. A relação consigo mesmo é mais árida. As relações humanas são mais complicadas. Tudo é mais difícil para essas pessoas. Posso dizer isso pela minha própria vida e a de muitos pacientes atendidos nesses mais de trinta anos.
Notei que após a terapia as pessoas lidam melhor com seus problemas, com seu trabalho, em suas relações humanas. Tudo corre mais suave. Acabam as situações de "vítima". Acabam as buscas extremas de "poder". E a vida fica mais fácil sem ter que carregar tanto "peso" de mágoas passadas.


E eu sempre me perguntando o quanto o desgaste do organismo facilita doenças, o quanto "derruba" o sistema imunológico.

Sobre autorregulação

Quanto mais dissociado o organismo ou indivíduo , menos ele consegue se autorregular.
Parece que autorregulação depende de um certo grau de presença.
A autorregulação é a capacidade do organismo se refazer a cada ciclo o tempo todo e de novo. Nosso organismo tem essa capacidade plena. Como por exemplo no nosso sono. Pessoas que têm distúrbio de sono sabem o quanto isso prejudica sua autorregulação. O nosso organismo se reorganiza durante nosso sono. Se refaz.

E em geral observa-se que quento mais prejudicado por trauma menos presença e portanto menos autorregulação.
E não me parece que a nossa cultura favorece a autorregulação já que ela não admite muito os ritmos (pessoais) individuais.
Não se tem tempo suficiente para a digestão, para o sono, para executar tarefas. O nosso corpo é sete vezes mais lento que o nosso neocórtex?
Estresse garantido.

Isso sem contar com os “combustíveis” com os quais o nutrimos. Nutrimos?

Sobre trauma



Pesquisando e clinicando há mais de trinta anos, cheguei a uma técnica integrativa que reconstrói a neurologia do indivíduo atingido por trauma permitindo assim a "volta" ao fluxo natural do "rio" da vida restaurando a autorregulação.
Nosso organismo é incrivelmente capaz de se regular neurologicamente de modo a nos adaptarmos às grandes saídas de nossa zona de conforto. Porém, um indivíduo que passou por trauma geralmente tem essa capacidade diminuída ou em casos mais severos, nenhuma capacidade de autorregulação. Sabe aquela pessoa que sai do sério por pouca coisa e depois não consegue voltar ao lugar interno de paz, segurança conexão objetividade orientação etc?
É o trauma que causa tudo isso e que compromete o funcionamento pleno do organismo por perda de energia. Energia essa, vital, da qual este organismo depende e que está sendo drenada pelo vórtex de trauma para sua própria manutenção. E que consequentemente, fará falta a esse organismo.
No trabalho clínico de cura que é a restauração da autorregulação é muito comum acontecer reestruturação da autoestima, alegria, esperança  etc que são os maiores recursos que temos e mais do que tudo, o retorno dessa energia vital para o organismo aumentando assim a resiliência que é um termo emprestado da Física designando a capacidade de um material recuperar sua forma e estrutura original após algum tipo de impacto significativo. No nosso caso, é a capacidade e a qualidade de sobrevivermos após algo que foi demais para nós. Veja bem, dois indivíduos passam pela mesma experiência e um saí traumatizado e o outro, não. Um é mais resiliente que o outro.
Trauma é tudo o que é muito forte para o organismo e que deixa alguma sequela mesmo que seja um comportamento mínimo que atrapalha um pouco a vida (estresse pós traumático) ou um sintoma grande que quase impossibilita a existência (sintoma pós traumático).
Mesmo que raramente o indivíduo associe aquele sintoma ao trauma.
De todos os modos o que me leva trabalhar com essas pessoas e escrever sobre o assunto é o desejo profundo de que as pessoas saibam que elas tem a possibilidade de viver uma vida plena e não uma sobrevivência sofrida por causa de algo que estava além de sua capacidade de suportar como se fosse uma fatalidade do destino.
Tem cura.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O que é "borderline"?

Borderline, em uma tradução livre, se refere a extremos, limites tênues. 
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Ou seja, o transtorno de personalidade borderline caracteriza pessoas que, literalmente, são 8 ou 80, de uma forma nada saudável para elas ou para quem as cerca. Vivem uma montanha-russa emocional e podem ir de um intenso sentimento de ansiedade à depressão intensa logo em seguida. Confira alguns indícios clássicos do transtorno:

- Um dos principais sinais do transtorno é um longo histórico de instabilidade nas relações pessoais. Podem idolatrar alguém e, logo em seguida, odiá-la.
- Tendência a assumir riscos sem pensar nas consequências. Especialmente quando os resultados são contra ela mesma, como por exemplo: acidentes de carro, sexo de risco ou abuso de substâncias.
- Sentem raiva intensa sobre assuntos relativamente triviais e respondem fisicamente. Isso pode incluir tentativas de automutilação ou pensamentos suicidas. No entanto, geralmente não estão tentando se matar quando se flagelam. Ao contrário, elas estão expressando sentimentos de raiva com relação a si mesmas ou tentando se sentir ‘normais’.
- Muitas vezes se sentem como pessoas diferentes, dependendo com quem estão. Elas costumam se descrever como perdidas e vazias.
- Pensamentos paranóicos. Elas acreditam em coisas que não são verdadeiras e se sentem perseguidas pelos outros. 
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👨🏻⚕️Estes ataques podem durar algumas horas ou mesmo alguns dias. Devido aos riscos por trás do comportamento extremista, essas pessoas precisam de ajuda psicológica e psiquiátrica. 
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Fonte: Psicolinews 
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Trauma, dissociação e felicidade


Trauma , dissociação e felicidade


Você já percebeu que estava dissociado? Por exemplo, você já percorreu um caminho conhecido sem se perceber e chegou ao seu destino sem ter a mínima memória do caminho que percorreu? Isso é dissociação. Não entenda mal: a dissociação é um mecanismo importantíssimo. Ele pode ser uma defesa. Ele pode estar a serviço da economia de energia do cérebro. Nesse último caso, estar no “automático” em certas tarefas repetitivas permite uma economia maior de energia já que o cérebro presente e pensante gasta muita energia (atp - adenosina tri fosfato).
Nosso cérebro consome muita energia quando em atividade.
Então uma das maneiras de economizar energia em tarefas em que a atenção é relativa é ele se colocar em “piloto automático”. Porém há momentos em que ele está dissociado e não deveria. Exemplifico: quando você está com um problema ou questão que está necessitando muito de sua atenção, é muito comum a dissociação em outras questões ou seja ausência de presença. Sabe aquele momento em que você sem prestar muita atenção concorda com alguma coisa que você jamais concordaria, pois é, você estava dissociado. Comumente chamado de distraído. A verdade é que dissociados não estamos em lugar nenhum. Seu cérebro está tentando dedicar-se a outras questões do que aquela que se apresenta. 
O mesmo acontece com quem carrega traumas. Parece que o trauma ou os traumas habitam o “segundo plano” do ser. Ele acaba “roubando” parte da atenção e presença daquele organismo. A falta de presença e atenção resulta  num self dissociado que habita o mundo sem coerência ou pouco coerente. A pessoa acha que se conhece mas carece de coerência e lucidez. São aqueles seres sem noção. Sem a menor coerência. Lógico que os graus de coerência e noção variam apesar de que muitos de nós nos dedicamos a ter mais lucidez , mais maturidade e maior compreensão do mundo e de quem nele habita. Outros se dedicam a saciar seus desejos imediatos. 
Muitas vezes nos damos conta do quanto estamos dissociados.
Muitas vezes nos damos conta do quanto o outro está dissociado. Até faço uma correlação direta entre trauma e dissociação. 
Muitos traumas não parecem traumas mas causam o mesmo dano na vida da pessoa. Por exemplo: está na moda criar-se as crianças poupando-as de frustração. Minha geração, de certo modo, aprendeu a suportar mais frustração que as crianças de agora (2019). O resultado é que a auto estima, da criança e das pessoas em geral atual, é fragilizada pela ideia recente em termos históricos de felicidade que certamente não tínhamos quando eu era criança. Como agora a felicidade está em moda, ninguém tem facilidade de aceitar e “digerir” o aborrecimento, a frustração, a dor, a ansiedade. Somos tão “mimados” pela tecnologia e facilidades da nossa vida que não podemos esperar. 
Temos que ter tudo na hora. Temos que ser constantemente felizes. 

Bettina Sandel Korall


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A neurologia do sono





Nas últimas décadas muitos pacientes de doenças crônicas graves como miastenia, neuropatias, e muitas outras tinham uma característica comum: a privação de sono.
É no sono que nosso organismo se autoregula, se reorganiza, processa e integra experiências vividas durante o dia. Apesar da boa vontade dos médicos, quem faz uso de remédio para dormir ou relaxar, sabe que o sono “induzido” não tem a mesma qualidade do sono expontâneo.
Ao mesmo tempo, organismos que sobreviveram traumas (independentes do grau ou qualidade do trauma), tem em comum a má qualidade do sono.  Quando eu recebo um paciente com distúrbio de sono, quase que consigo ter uma noção do que este paciente passou. Claro que existem variações de pessoa para pessoa porque uns são mais resilientes do que outros. Para mim, que trabalho com a neurologia do trauma através de uma “simples” conversa que vai atuar no sistema polivagal que é justamente o sistema que foi “prejudicado” pelo trauma, e como sabemos, independe da gravidade da experiência, porque cada um é estruturado de maneira diferente e viveu experiências distintas na vida, a estória que o paciente traz serve somente de guia. O que importa é o que essa experiência causou à neurologia da pessoa. Uma neurologia que ficou em parte “estagnada” na circunstância do trauma. Esse organismo, por estar “estagnado” na circunstância do trauma “tem certeza” de que ainda se encontra em risco e por isso permanece ativado, em alerta.
Esse organismo não pode relaxar porque funciona como se ainda estivesse em risco.
Por causa dessa característica que tem a função de preservar o organismo, aquele indivíduo não pode relaxar, não pode adormecer porque vive como se estivesse em risco. Estas pessoas têm distúrbios bastante sérios de sono. Alguns têm dificuldade para adormecer enquanto que outros adormecem porém acordam muito antes de terem completado um número satisfatório de horas de sono. Horas de sono que permitem ao organismo se recuperar, se reorganizar, se curar, etc

Bettina Sandel Korall
bettinakorall@uol.com.br