A necessidade de escrever este texto veio do fato de ter que repetir a mesma coisa todos os dias para inúmeras pessoas que estão sofrendo, nas mais diferentes circunstâncias.
É verdade, trauma tem cura, tanto faz o tamanho do trauma. Podem ser traumas pequenos, o que o americano chama de "soft traumas", "traumas leves" como são por exemplo, os traumas decorrentes de esportes repetidos. Aquele que você nem lembra...
O que é “trauma”?
Penso que é importante a esta altura “emprestar” uma definição de trauma bem simples e útil.
"Trauma é tudo que é demais para o organismo" Seja muito forte, muito cedo na vida, durante tempo demais ou muito subitamente, muito rápido. Ajudou?
Bom, então neste caso, somos todos traumatizados? Em alguma medida, sim. Nós humanos, devido a nossa fragilidade física, emocional e ontológica, vivemos enfrentando situações que são demais pra nós e, devo dizer que na maioria, nos saímos bem. Ou conseguimos superar aquela situação e/ou senão acabamos de algum modo, nos adaptando. Temos a característica de irmos nos adaptando às mais diversas situações. Porque temos muitos recursos. Explicarei esta questão dos recursos mais adiante.
Porem, algumas situações, são demais ou muito rápidas, e nosso organismo tem que responder àquela situação do jeito que der mesmo que ele não esteja preparado, ele é obrigado a agir e não o faz com o tempo necessário e isso é o “trauma“.
Se você cai e machuca seu braço que fica com hematomas, isto pode ser traumático, dependendo da sua resiliência, e de como o seu organismo vai lidar com aquilo se é de maneira fácil ou não.
Ou se você é humilhado na infância...
O que é insuportável para alguns, para outros, não é.
O que é “resiliência”?
Resiliência é a “capacidade” de resistência do seu organismo de uma forma geral, tanto emocional quanto física, integradas.
É a capacidade de se recuperar após algum evento muito forte, de se restaurar, de voltar ao bem estar. Algumas pessoas têm muita dificuldade de superar, de voltar ao bem estar. Ficam “enganchadas” no que as tirou do equilíbrio. Esta característica de se “enganchar” é comum nas pessoas traumatizadas.
Quanto mais dificuldade emocional de lidar com as contrariedades do dia a dia, menor a resiliência, como um todo. Sabe aquela pessoa que enrosca em tudo? Ou que só fala de desgraças? Isso também é sintoma ou sinais pós traumáticos.
Muitos dos pacientes que chegaram ao meu consultório nessas mais de duas décadas, sofriam de doenças crônicas, e ao longo do nosso trabalho, fomos percebendo que as doenças estavam ligadas a traumas no passado. E que trabalhando com novas técnicas de abordagem neurológico/corporal tais como “Somatic Experiencing” (experiência somática)http://www.traumatemcura.com.br, “TRE” “Trauma Releasing Exercises” (técnica desenvolvida e divulgada por David Berceli) http://trelondon.com/author/stevehaines66/ , “Mindfullness” http://www.theinsightcenter.org , e outras, os sintomas, físicos, diagnosticados por médicos e documentados em exames, regrediam ou desapareciam.
Não sei se quero entrar neste tema, neste momento. Mas,
a violência, diferente do que se pensa, não é fruto da pobreza, é fruto do “trauma”. Mas definitivamente é o “trauma” que está na raiz da violência e muitos outros “distúrbios” psíquicos. Não é uma maneira de justificá-la e sim, de entende-la.
E, compreendendo é possível “incluir“.
Bem, se acabamos de nos dar conta que somos, potencialmente, todos traumatizados, a boa notícia é que “traumas” são curáveis.
Não só isso, mas a maior boa notícia é que o organismo humano é auto curável. Como? É isso mesmo que eu li? Sim!
E é justamente porque nos traumatizamos é como somos curáveis, “consertáveis”.
Da mesma forma que podemos nos traumatizar, podemos nos curar de qualquer sintoma ou “sintominha” pós traumáticos.
Chamo de “sintominha” (carinhosamente) aqueles sintomas ou sinais pós traumáticos que aparecem, por exemplo, como pequenas fobias: “medo de elevador”, “medo de avião”, “de multidão” enquanto pequenos “medos” que restringem mas não impedem a vida. Os altamente, contornáveis.
Lembre-se que nos adaptamos a qualquer coisa!
E chamo de sintomas pós traumáticos aqueles que já estão impedindo o curso satisfatório da vida, impedindo a auto-realização, a felicidade. Tais como agorafobia “medo de sair de casa” ou outros sintomas pós traumáticos que se manifestam como doenças graves e doenças auto-imunes.
Até alguns anos, eu jamais poderia fazer essa afirmação com tamanha tranqüilidade mas hoje, já sabemos que traumas afetam a resiliência do organismo.
Quando buscar ajuda profissional?
Então, diante desta estória de “trauminhas” e “traumões“, “sintominhas” e “sintomas“, “dorzinhas“, “dorzonas“, com todo o respeito, qual é o critério para buscar ajuda ou não?
É o sofrimento. É o sofrimento que determina se você deve buscar ajuda...
Você pode se fazer as seguintes perguntas:
“Estou sofrendo?”
“Eu poderia estar vivendo melhor e não estou por causa de algum sintoma pós traumático?”
“Eu poderia estar me relacionando melhor com as pessoas e não estou?”
Parece impressionante mas por detrás destas questões, existem traumas.
E a cura, como é?
A cura, na verdade, é através de ajudar o organismo a “arrumar” aquilo, que ele já está tentando fazer normalmente.
A natureza do nosso organismo é de se restaurar já que o organismo “avariado”, consome mais a “energia vital” deste organismo.
E como isto acontece?
Acontece por meio de uma ajuda neurológica, já que o sistema nervoso parassimpático não distingue entre idéia e realidade e reage da mesma forma às duas provocando uma resposta neurológica assim como uma descarga, reorganização e integração desta nova condição.
E que ajuda é essa?
Esta ajuda é uma ajuda que o organismo já faz como natural que é o uso do “recurso”.
O que é “recurso”?
“Recurso” é tudo que te provoca uma resposta de bem estar ou de melhor estar no corpo. Tudo que, só de pensar, já produz uma resposta boa no corpo. Todos nós temos nossos “recursos”. E os conhecemos muito bem.
Porém o que é “recurso” para um, pode não ser para outro.
“Recursos” são extremamente pessoais.
“Recurso” é tudo que te faz sentir melhor ou cuja simples lembrança, te faz sentir melhor.
Faz esse exercício. Pensa em algo que é “recurso” para você. Pensou? Fica pensando durante um tempinho e percebe o que acontece no teu corpo...
Se não funcionar, muda de “recurso”. As vezes “recursos” são contaminados tipo bom e ruim ao mesmo tempo. Aí você pode isolar aspectos do “recurso” que funcionam como por exemplo:
Pensar no bebé pode despertar outros sentimentos diferentes mas lembrar do cheirinho do bebé após o banhinho pode ser um recurso, entende?
Atenção:“recursar-se aumenta a resiliência da mesma maneira que ficar atentando contra a própria felicidade, a diminui” B.K.
Então, da mesma maneira que usamos nossos recursos, o terapeuta pode usar estes “recursos” junto com o paciente, na sessão, para promover uma mudança na condição de sofrimento, ou seja, mais um passo no caminho da felicidade.
Bettina Korall é psicóloga/neuropsicóloga e terapeuta de SE,
Clinica em São Paulo e online
bettinakorall@gmail.com
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